Saturday, August 21, 2004




Além De Mim...


As pedras da calçada estavam molhadas,
E eu corria, fugia de algo…
Algo que não compreendia, algo que não queria compreender,
Algo que tinha medo de conter, no entanto…
Chovia lentamente naquele dia,
E as nuvens não eram puras nem brancas,
Estavam carregadas de negro, estavam sujas,
Sujas de solidão, de saudades.
A chuva que caia acalmava o meu espírito.
Cada gota que caia fazia-me lembrar um beijo,
Cada momento daquela estranha natureza que vivia, lembrava-me a ti.
Parei de correr, e apreciei o céu, olhei profundamente
Como se uma beleza incrível tivesse despontado.
Parecia sol… mas o céu continuava negro.
Era sol, mas ele não nascia ali naquele céu, mas sim em mim.
No meio da cidade, das vidas, das pessoa que passavam,
Onde se cruzavam ali comigo, chorei.
As lágrimas caíram e em minha face, confundiram-se
Com as grossas gotas de chuva.
Sentei-me no alpendre molhado, de uma casa antiga.
E ali fiquei.
Tive vontade que aparecesses,
Que chegasses, e ali sentavas-te ao meu lado,
Punhas um braço em volta de mim, e ai ficávamos.
Contemplando todas as vidas que passavam e nos eram alheias,
As pessoas que fugiam, o céu onde agora o sol parecia brilhar,
E as gotas de chuva que traziam do céu,
Todas as lembranças que sobre ele vivemos.

Voltou a escurecer, e dos meus sonhos,
Não te encontrei na realidade.
Chorei um pouco mais, e tomei uma decisão.
Caminhei em direcção contrária do caminho de casa,
Queria-te encontrar.
Queria poder chorar ao teu lado,
Queria poder dizer-te que te amava.
Queria ver-te, dizer olá,
Abraçar-te, e sentir-te perto de mim.
A mochila pesava-me, e sentia o frio em todo o meu ser,
Por mais que pensasse no calor do meu amor,
O frio da natureza não nos queria juntos.

Caminhei, e caminhei… afim de poder fugir,
O meu corpo reagia a tudo,
E da dor, o meu caminho afugentou.
Tudo naquele momento, era mais precioso que eu,
E assim caminhei.
Caminhei, e encontrei a minha saída para a dor do meu corpo.
Entrei num dos comboios ferrugentos, todos eles pareciam ditar um destino diferente,
E ainda mais diferente cada pessoa, que entrava.
Fui para longe de todo aquele mundo,
Fugi para o meu pensamento, e para a minha solitária
Dor interior.
Refugiei-me ai, não chorava mais, estava determinada a tornar-te realidade naquele momento,
Rápido chegou a altura de acordar, e de sair dessa ânsia de pensamentos,
Saí na minha paragem.
Já não chovia, no entanto a escuridão do céu ameaçava isso.
Não sabia onde te procurar, onde te encontrar certamente,
Senão na escuridão do meu ser.
Caminhei por aquelas ruas desconhecidas,
Procurei-te por todo lado,
Não te encontrei.
Que destino mais sujo este,
Senti vontade de gritar bem alto o teu nome.

Olhei no horizonte, e vi o mar.
Era negro, e parecia querer chorar,
Tal como tudo o que me rodeava por ai além…
Caminhei em direcção ao mar,
Sabia que aí não te encontraria,
Esperava estar errada.
Aproximava-me daquela imensidão lentamente.
Quando chegai, vi que estava deserto,
A areia estava molhada, e o mar violento.
Fiquei no passeio sentada, a olhar para tudo aquilo.
Senti-me bem, com vontade de te amar mais,
Tive vontade de atravessar aquele oceano para te encontrar,
Ainda assim não o fiz, porque estavas perto de mim.
Olhei para trás, e vi o longo passeio que percorria a praia,
Uma estranha neblina cobria-o.
Uma lágrima correu a minha face,
Desceu até ao canto da minha boca.
Estava de olhos fechados, para não ver o mundo,
E as pessoas que nos separaram.

Voltei a abrir os olhos, e vi um vulto
Atrás da neblina.
O meu coração, parecia voltar a bater,
Sorri feliz, ao ver que eras tu quem se aproximava.
Levantei-me do chão, e tu também paraste,
Ficamos uns instantes a olhar um para o outro.
Caminhei, mas desta vez finalmente em tua direcção.
Tu também vinhas ter comigo, quando olhei para ti, vi que também choravas.
Decidi acabar com o nosso pesadelo,
E abracei-te tão intensamente como o primeiro dia que te vi.
A chuva começou a cair, e contigo ali já não sentia frio.
Parecia que nada iria desmoronar aquele sonho,
Sabia que agora estarias sempre comigo.
Fui feliz…

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